O Auditório dos Serviços Sociais da Câmara Municipal de Lisboa foi palco do Evento Internacional “Menopausa e Direitos Humanos” 26, um encontro que posicionou a menopausa não apenas como uma questão clínica, mas como um verdadeiro tema estrutural de saúde pública, equidade laboral e dignidade humana.
Menopausa: um tema individual com impacto coletivo
As mulheres representam hoje mais de metade da população ativa no mercado de trabalho. Ainda assim, a menopausa — incluindo a perimenopausa — atravessa praticamente metade da vida laboral feminina, permanecendo frequentemente invisível nas políticas organizacionais e no discurso público.
A mensagem central foi inequívoca:
é urgente romper o silêncio.
Falar sobre menopausa não é apenas uma questão de saúde — é um imperativo social. Promover literacia, dar voz às mulheres e reconhecer o impacto real desta fase da vida são passos essenciais para uma sociedade mais justa.
Direitos laborais: do enquadramento legal à prática real
Existe já legislação laboral que pode e deve ser aplicada e adaptada à realidade da menopausa. O desafio está na sua implementação efetiva.
Entre as medidas discutidas, destacam-se:
•Garantir acesso equitativo à medicação, sempre que indicada
• Promover ambientes de trabalho saudáveis e arejados
• Facilitar teletrabalho, particularmente em situações de insónia ou fadiga
• Criar culturas organizacionais baseadas na confiança e no diálogo
O objetivo é claro: evitar que mulheres no auge das suas carreiras sintam necessidade de abdicar do seu percurso profissional devido a sintomas não reconhecidos ou não apoiados.
Prioridades estruturais: uma abordagem sistémica
O evento destacou um conjunto de prioridades absolutas que exigem resposta coordenada:
• Normalizar o tema na sociedade
• Melhorar as condições no emprego
• Implementar medidas globais ao nível do sistema
• Integrar a menopausa na educação e literacia em saúde desde a escola
• Reforçar a formação dos profissionais de saúde
• Garantir o acompanhamento contínuo no SNS, ao longo de todo o processo
Tudo isto assenta numa ideia-chave:
a responsabilidade é pública e transversal.
Saúde e menopausa: evidência, risco e acompanhamento
No painel clínico, destacou-se a intervenção de Anne Gompel, que sublinhou o impacto da menopausa na morbilidade feminina.
Entre os principais pontos:
• A menopausa associa-se a aumento do risco de doenças cardiovasculares, frequentemente mais graves nas mulheres do que nos homens
• A osteoporose é encarada como um problema de saúde pública prioritário. Sigamos o exemplo no tema da Menopausa
• A criação de consultas especializadas de menopausa é fundamental
Em França, foi apresentado um modelo colaborativo entre Ginecologia e Cardiologia, que visa simplificar o rastreio e melhorar os outcomes clínicos.
Terapêutica e adesão: um desafio crítico
A terapêutica hormonal pode melhorar significativamente a qualidade de vida, sendo possível, em alguns casos, antecipar a intervenção até cerca de uma década antes do aparecimento de sintomas mais marcados.
No entanto, um dos maiores desafios identificados é a baixa adesão das próprias mulheres à terapêutica.
Daí a necessidade de:
• Informação clara e acessível
• Acompanhamento contínuo
• Relação de confiança com os profissionais de saúde
Paralelamente, foi reforçada a importância de garantir disponibilidade e comparticipação da medicação, sempre que clinicamente indicada.
Integração de cuidados: o papel da Medicina Geral e Familiar
A discussão sublinhou a importância de envolver a Medicina Geral e Familiar (MGF) como eixo central na transição e referenciação para outras especialidades, nomeadamente:
• Ginecologia
• Endocrinologia
• Cardiologia
A abordagem deve ser integrada, contemplando planos terapêuticos e não terapêuticos, ajustados a cada mulher.
Uma agenda comum: saúde, trabalho e dignidade
A menopausa emerge, assim, como um ponto de interseção entre:
•Saúde
•Trabalho
•Igualdade
•Integridade
Foi também destacado o apelo institucional à criação de parcerias entre ordens profissionais e municípios, promovendo intervenção coordenada, partilha de boas práticas e resposta urgente às necessidades identificadas.
Conclusão
Mais do que um evento, este encontro reforçou uma mudança de paradigma:
a menopausa deve ser reconhecida como uma questão de direitos humanos.
Garantir dignidade no acompanhamento, condições justas no trabalho e acesso equitativo aos cuidados de saúde não é opcional, é uma exigência de uma sociedade que se pretende inclusiva, informada e baseada na evidência.
Saiba mais:
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